Encantamentos no Fatucama e à volta de Díli
Enquanto subo as escadas que vão dar ao Cristo-Rei, ouço lá ao fundo o rugir das ondas do mar, que chega a parecer uma cascata estrondosa; afasto os sempre incomodativos e perigosos mosquitos e vou olhando as portas que simbolizam as paragens, sofridas, de Cristo durante o seu percurso até à sua crucificação. Por mim passam alguns timorenses com o seu caminhar elegante e descalço. Os montes de castanho pintados dão, com a chegada da época das chuvas, lugar a um verde lindo…Neste dia, pelo menos neste dia, o lado de lá do Cristo-Rei, junto à praia dos portugueses, presenteia-nos com um mar muito mais calmo, que quase parecerem haver dois mundos diferentes, que contrastam, apenas separados por um monte. Curioso. Este monte onde o enorme monumento olha o mar chama-se Fatucama.
De repente, mas não de forma surpreendente, uma família de nuvens resolve chorar com a ganância e falta de bom senso dos homens e vem chorar a uma terra distante. Começa a chover e eu decido cantar. É bom sentir na pele esta chuva quente, tropical. Pode parecer um lugar comum, mas caminhar, correr, andar de bicicleta, cantar, e outras tantas coisas que se podem fazer à chuva, sempre provocou em mim uma sensação de liberdade. E, acima de tudo, faz-me sentir vivo, sentindo na pele o néctar dos seres vivos.
Desço do Cristo-Rei no Fatucama e sigo num passeio. Já de mota, subo o monte e desço-o. Já do outro lado, no sopé, resolvo seguir por um trilho que me conduz a uma praia isolada, com cerca de cinquenta metros de largura e dez de areal até à borda da água salgada. Encostada a uma mini-escarpa de um dos seus lados, onde no fundo uma pedra negra reproduz a forma de um crocodilo que descansa na água que banha o areal, esta praia é uma alusão a um paraíso.
Deitado na minha toalha, cuidadosamente como vim ao mundo, sinto que a vida também é assim: plena de desapegos, de liberdade. E olho as sempre diferentes tonalidades do mar, que não me canso de ver, aquelas e aquele, quando reparo e volto a reparar; isto na terra que, como a poesia que produz encantamento no leitor, é de sonho e encantamento.
Mudo de lugar na realidade de sonho. Definitivamente, esta é uma terra de magia. Ainda em Díli, na praia dos coqueiros, para onde depois fui com o Gabriel, meu companheiro de andanças, corro demoradamente pelo areal até à zona do aeroporto. Sem a máquina fotográfica que, juntamente com o lápis, um caderno possível e algo mais para uma situação que a imaginação possa prever que surja inesperadamente, deve acompanhar aquele que escreve, e sem os dotes para o desenho que deveria, ou pelo certamente não me importaria de possuir, tiro desta forma o retrato deste momento: deparo com duas árvores que espantaram a minha a atenção; um coqueiro já só apoiado em metade da sua base, na areia, inclina-se para o mar, impondo-lhe respeito; uma outra, que apelido de a majestosa, de troncos brancos, folhas verdes e raízes expostas ao sol, manifesta uma postura de rainha, estendendo um dos seus braços à espera de uma companhia a quem possa contar as suas histórias de uma realeza.
Neste momento, não o que escrevo, que já é futuro, mas o da sequência narrativa dos acontecimentos, eu e o meu amigo, um espírito da paz, que anda à solta, ajudamos um pescador a dar à costa – quase estampava o seu barco na areia, podendo até rachá-lo ao meio; donde, já sem vida e ingloriamente, quase regressou ao mar o fruto do seu trabalho e o seu ganha-pão. Todos acorreram para ajudar e contribuir no sucesso do que estes dois malais faziam. Malais estes que já sentem na alma o cheiro do crocodilo.
As deleitosas horas passadas terminam na D. Fina – designação carinhosa dos clientes assíduos de um bar/restaurante na praia da areia branca.
Na D. Fina, ao sabor de um sumo de abacate, sentado na direcção do mar de Timor, qual quadro impressionista posso contemplar! Um céu pintado de laranja e azul (e outras demais cores quase indefiníveis), sob o rugido da pré-rebentação na costa, com Díli no canto esquerdo e no direito mais um derrame de laranja que parece desviar os olhos do Cristo-Rei – assim estou sentado na D. Fina, acompanhado, novamente com o espírito da paz à solta e uma outra alma declarada ao mundo – alma esta que sorri a cada instante do sopro de uma aragem.
Há sorrisos que, como as paisagens, pintam impressões inesquecíveis no crepúsculo da nossa memória. E assim nos encantam.

3 Comments:
gostei muito!deve continuar!siga o seu coração!e exponha os seus sentimentos e a sua experiência!que coisa linda ler isto!
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